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Café Portrait

Trazido das Guianas, o café ingressou no Brasil no início do século XVII e se estabeleceu inicialmente no Vale do Rio Paraíba, introduzindo em 1825 um novo ciclo econômico no país.

A cultura do café expandiu-se de forma acelerada, possibilitando o surgimento de novos centros urbanos, sendo São Paulo a região onde o café se consolidou como base da economia brasileira durante a primeira república (1889-1930).

Com a melhora nas condições de transporte e comunicação com a Europa o café gerou enorme riqueza para o país, recriou hábitos e costumes brasileiros, transformou as relações de trabalho a partir da entrada de imigrantes (principalmente italianos), consolidou a expansão da classe média e até mesmo intensificou movimentos culturais. Neste período, o café e o povo brasileiro relacionam-se de forma inerente.

As plantações de café foram fundadas em grandes propriedades monoculturais, as grandes fazendas do café. Estas casas rurais do final do século XIX e início do século XX incorporavam o conforto da Belle Epoque de Paris e da vida moderna da cultura européia, e eram compostas por exuberantes salões e saletas destinadas às mais diversas atividades (sala de jantar, sala de visitas, sala de leitura, sala de música, sala de chá, etc); muitas janelas para arejar o casarão; corredores para um trânsito interno mais discreto; jardins à francesa; banheiros dentro da casa simbolizando a preocupação com a higiene; mobiliários, papéis de parede, azulejos e ladrilhos hidráulicos importados da Europa. Estas fazendas simbolizam a solidez financeira e cosmopolitismo dos barões do café, e serviram de inspiração para o desenvolvimento da coleção Café Portrait.

Ladrilho da Saudade

Ladrilho da Saudade

 

'Azulejos da cidade,
numa parede ou num banco,
são ladrilhas da saudade
vestida de azul e branco.'

José Carlos Ary dos Santos, Fado dos Azulejos. (excerto)

Os casarões das fazendas de café sofreram grande influência da arquitetura européia do século XIX, e a entrada de produtos importados ficou mais fácil por conta da riqueza proporcionada pelo café juntamente com a abertura dos portos e a modernização dos transportes.

Além dos papéis de parede, vasos de porcelana, cristais e prataria que eram importados e consumidos com avidez pela elite paulista, os azulejos e ladrilhos hidráulicos - em sua maioria portugueses - passam a revestir fachadas, paredes e pisos destes casarões.

Além de material decorativo, os azulejos servem de documento histórico do processo de consolidação da nossa cultura, porém este patrimônio cultural não tem sido preservado como merecido e está desaparecendo.

Morro Azul

Morro Azul

 

“Passarinhos
Na casa que ainda espera o Imperador
As antenas palmeiras escutam Buenos Aires
Pelo telefone sem fios
Pedaços de céu nos campos
Ladrilhos no céu
O ar sem veneno
O fazendeiro na rede
E a Torre Eiffel noturna e sideral”

Ao contrário do que muitos imaginam, a produção agrícola e o trabalho na terra não eram as únicas práticas desenvolvidas nas fazendas de café, a atividade cultural, financiada e estimulada pelos cafeicultores, também foi importante nestas fazendas agitando diretamente a produção cultural paulista. Influenciados pelas vanguardas européias, uma nova geração de pensadores e artistas brasileiros descobriu no interior do nosso país inspiração e tema para seus projetos.

A Fazenda Morro Azul, localizada em Limeira-SP, foi cenário fundamental para esta agitação cultural, sendo inclusive homenageada por Blaise Cendrars em seu romance Lotissement du Ciel, em La Tour Eiffel Siderale, e por Oswald de Andrade com o poema Morro Azul em seu livro Pau Brasil:

Michael Thonet IMichael Thonet II

Michael Thonet I e II

 

Michel Thonet [1796 – 1871] foi um marceneiro alemão estabelecido em Viena, na Áustria, e marcou a história do mobiliário do século XIX com suas produção em série das cadeiras de madeiras curvas, que eram moldadas e curvadas através de um processo de aquecimento e molde da maneira, patenteado em 1856.

As cadeiras, poltronas e sofás de 'estilo austríaco' possuíam o encosto e assento feitos de palha entrelaçada, eram leves, desmontáveis, facilmente transportáveis, e simbolizam bem o conceito da revolução industrial que estava em seu seu apogeu na época. Este novo conceito do sentar conquistou o mundo por seu design simples, prático e flexível, e caracteriza o mobiliário dos salões paulistas do café.

Paulo Prado IPaulo Prado II

Paulo Prado I e II

 

Paulo Prado [1869-1943] pertenceu a uma das mais tradicionais famílias paulistas ligadas à produção do café, e é figura marcante deste período. Sob sua direção, a Companhia Prado Chaves torna-se a principal empresa brasileira de exportação do café.

Homem culto e requintado, ainda moço completou sua formação intelectual em Paris. De um lado representa a burguesia cafeicultora, e de outro o intelectual e amante das artes que investiu na fundação de uma identidade nacional como interlocutor e principal mecenas da Semana de 22.

De modo despretensioso, Paulo Prado revisita a nossa história e escreve Retrato do Brasil: Ensaio sobre a Tristeza Brasileira, obra importante que questiona e discute a formação e estagnação da nacionalidade brasileira e que é referência notável quando o assunto é cultura do Brasil.