Manifesto

Casa do Mestre Antonio do Reisado de Caretas. Potengi - CE, 2015.

Sempre me chamou a atenção aqueles retratos pintados super-realistas, destacados nas paredes coloridas das casas populares do nordeste.

Foi no final do ano passado, quando comecei a me aprofundar na história da fotopintura, que me encantei com o trabalho do mestre Julio Santos e, mais ainda, com a possibilidade que a fotopintura oferece de interferir de forma solidária e democrática no realismo da fotografia, de retocar marcas do passado e atribuir dignidade às pessoas ali retratadas.

Quando entendi a fotopintura como um artifício para homenagear aqueles ali resgatados, é como se tivesse entendido um pouco mais sobre o meu próprio trabalho: para mim, a estamparia é o meio que encontrei de homenagear aquilo que me encanta. E com o fato de a fotopintura estar se extinguindo, assim como muitos outros ofícios da nossa cultura, senti uma vontade quase que necessária de homenagear estes grandes mestres que ainda mantém viva uma arte do passado, passada de pai pra filho, de mestre para aprendiz.

Saí de São Paulo no dia 22 de janeiro desse ano com destino ao Ceará, terra dos mestres Julio Santos, Espedito Seleiro, Noza, Luis Gonzaga, mestres da Banda Cabaçal dos irmãos Aniceto, meu mestre inspirador Aldemir Martins e de tantos outros grandes mestres que fui conhecer ao logo da pesquisa e da viagem. O Ceará é hoje um dos cinco estados brasileiros que possuem políticas locais de reconhecimento e valorização de mestres: Tesouros Humanos Vivos.

A primeira parada foi em Fortaleza, em um único endereço: Áureo Studio, Rua Gonçalves Ledo, 1779. Fui totalmente na sorte, afinal não tinha conseguido sequer um número de contato do mestre Julio Santos e, em nenhum momento, tive a certeza de que o estúdio continuava no mesmo endereço, ou até mesmo funcionando.

Portas fechadas, rua vazia, silêncio, nenhuma campainha. Perguntei na vizinhança sobre o mestre Julio Santos, ninguém sabia me informar. Áureo Studio? Menos ainda. Fotopintura? sei não.

Sabia desde o começo que corria este risco, mas não quis acreditar no azar. Confirmamos a numeração, fui até a porta fechada do número 1779, olhei pela fresta... Pronto! Enxerguei uma câmera fotográfica num tripé e logo percebi que alguém estava sendo entrevistado: sim, era o mestre Julio que com um largo sorriso nos convidou a entrar.

“(...) é você dessecar, é você passar por dentro, é você conhecer toda a estrutura dela, é você largar o corpo e você conhecer a alma, o espírito da fotopintura. É isso que representa alguma coisa para mim.”
- Mestre Julio Santos

É tão bonito ouvir alguém falar do seu próprio trabalho com tanta convicção, maestria e beleza. Falar de fotopintura com o mestre é falar da vida, da morte, do renascimento, de encantamento, dos sonhos das pessoas, da falta de dignidade, da dignidade atribuída, de entes queridos, do socialismo, da democracia, dos direitos, da liberdade.

Falar de fotopintura é falar do que é essencial.

“Nós somos iguais, então temos que ter os mesmos direitos. Nós temos que fazer é com que os nossos direitos sejam iguais, e que a gente possa lutar pelos mesmos direitos. E a fotopintura é tudo isso... Eu tento fazer com que ela seja assim”.
- Mestre Julio Santos

A conversa com o mestre foi uma introdução ao próximo destino - o Cariri cearense - e, no primeiro dia de viagem e sem perceber, já tinha entendido que, além de dominar muito bem um ofício e difundi-lo com excelência, ser mestre é captar, sustentar e valorizar a simplicidade da vida e respeitar o curso da natureza.

A Coleção Renovação é uma homenagem à todos os mestres da nossa cultura, e com ela pretendo ressaltar a importância da existência destes processos pertencentes a um tempo que está por se extinguir.

Clarisse Romeiro